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CriptograCIA

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O trocadilho é inspirado em matéria veiculada no O Globo, da qual tomei conhecimento pela minha amiga Maria Luiza Reis, Presidente da ASSESPRO – RJ, na qual se conta como a agência americana (CIA) se apropriou de uma empresa de tecnologia, chamada Crypto AG, que vendeu produtos de criptografia, para áreas estratégicas de segurança, aos principais países do mundo. Cento e vinte no total!

Uma verdadeira jogada de mestre que durou décadas e permitiu aos Estados Unidos uma vantagem competitiva extraordinária ao obter informações, que  deveriam ser secretas, de outras potências. A trapaça foi revelada ao mundo em fevereiro desse ano pelo Washington Post e teve repercussão na mídia. Talvez, em função da pandemia, que dominou os veículos imprensa em 2020, a notícia não tenha sido tão explosiva como deveria ter sido, pelo menos no Brasil, que se utiliza dos produtos “contaminados” em algumas plataformas de defesa,  inclusive em submarinos do programa Prosub.

A empresa suíça que foi controlada desenvolveu equipamentos e softwares utilizados para comunicações sigilosas. A neutralidade da Suíça foi um elemento chave para o sucesso das vendas. Uma tecnologia de segurança vinda de uma potência neutra tem o poder de encantar qualquer comprador.

Conversar secretamente está no imaginário popular da humanidade. Desde a infância, inventamos pequenos truques e códigos para nos comunicarmos sem que outros conheçam o conteúdo, como é o caso da “Língua do P”, uma variação da linguagem falada onde se acrescenta a letra “P” antes de cada sílaba, acompanhada pela vogal da própria sílaba (e eventualmente a consoante que a acompanha no caso de “R”, “S”, “L”, “M”, “N”, “Z”). Dessa maneira, por exemplo, transformamos a frase: “Segredo é fundamental” para: “PesePregrePodo Péé PunfunPaDaPenmenPaltal”. Se você conseguir falar rápido e o ouvinte estiver com o ouvido treinado, possivelmente você poderá falar em público sem que os outros compreendam. A brincadeira se torna muito mais interessante, sob o aspecto conceitual, quando se descobre que não é limitada à nossa cultura. Portugal faz o mesmo, e talvez tenhamos herdado de lá. Os países de língua hispânica possuem uma variação chamada jeringonza, bem como existem similaridades na língua inglesa. É possível que, em uma pesquisa mais detida, se encontrem outros exemplos mundo afora, demonstrando a universalidade do desejo de trocar informações exclusivas.

O fascínio pelo tema pode ser constatado no campo literário. Um dos fatores de grande sucesso da obra de Dan Brown é justamente explorar o mistério das escritas secretas. O principal personagem criado pelo autor, Robert Langdon, é um simbologista de Harvard, que protagonizou cinco livros (“Anjos e Demônios”, “O Código da Vinci”, “O Símbolo Perdido”, “Inferno” e “Origem”), tendo sido os dois primeiros e o quarto adaptados para o cinema. Códigos e significados ocultos permeiam as tramas do começo ao fim, criando um mistério que faz com que o leitor avance as páginas sem parar. Leitura agradável, dinâmica e muito interessante. Tive o prazer de ler os cinco ( e também os outros dois que não são do mesmo protagonista: “Fortaleza Digital” e “Ponto de Impacto”) e recomendo.

Se no âmbito lúdico a importância de se comunicar em privado já nos encanta, a relevância do tema ganha proporções maiúsculas nas relações comerciais e ainda maiores nas de defesa. Durante a segunda grande guerra, um dos trunfos da Alemanha foi o uso da Enigma, uma máquina capaz de embaralhar as mensagens de forma muito mais eficiente que a “Língua do P”. As regras de conversão das mensagens originais para as mensagens criptografadas não eram fixas, então mesmo que a mensagem fosse interceptada, isso não era suficiente para compreendê-la. Explicando o procedimento de maneira simples, imagine que você criou um código que substitui cada letra por um número. Então, por exemplo, “A” seria “1”, “B” seria “2” e assim sucessivamente. Essa codificação, no entanto, seria apenas para o primeiro dia. No dia seguinte, o número “1” representaria outra letra, não mais o “A” e assim continuaria com todo o alfabeto. Para decifrar o que está escrito, além de conhecer a lógica utilizada, seria necessário também saber quais eram as correspondências entre as letras originais e as codificadas naquele dia específico.

O efeito colateral da Enigma foi a criação das bases para a ciência da computação, tal qual conhecemos hoje. Na imperativa necessidade de conhecer os movimentos inimigos, a Inglaterra desenvolveu enormes esforços para decifrar a criptografia alemã. Teve sucesso por intermédio do genial Alan Turing, cujo trabalho ajudou a formalizar conceitos fundamentais da Tecnologia da Informação. Uma biografia do considerado “pai da computação” pode ser encontrada no filme “O Jogo da Imitação”, filme de 2014 dirigido por Morten Tyldum, baseado no livro “Alan Turing: The Enigma” de autoria de Andrew Hodges. Não li o livro, mas o filme é muito bom e ajuda a compreender os meandros da criptografia e os primeiros passos que nos trouxeram para o mundo virtual.

Considero as guerras, na acepção mais restrita da palavra, com a utilização de armas físicas, químicas ou biológicas,  uma resposta inadequada para os conflitos e espero que a evolução da humanidade possa abolir esse comportamento reprovável. Guerras de informação, sejam entre organizações comerciais sejam entre países,  no entanto, vão se intensificar. O domínio da economia, da política, das estratégias de soberania depende do conhecimento. Assim sendo,  o desejo lúdico de se comunicar em sigilo se transforma em necessidade real e prioritária. Os países que dependem de tecnologia alheia estão fadados a serem surpreendidos por movimentos similares aos feitos pela CIA junto a Crypto AG, normalmente, de forma extemporânea, depois de informações preciosas já terem vazado para seus concorrentes ou inimigos.

Nesse cenário, é iminente que o Brasil se posicione de uma maneira diferente da que está se posicionando atualmente. Não defendo uma xenofobia tecnológica, mas sim uma política pública estruturada de criação de tecnologia nacional. É necessário fomentar as empresas brasileiras de software, em especial nas áreas mais sensíveis, como no caso da defesa. A solução passa, necessariamente, por uma nova compreensão da Compra Pública, que deve ser instrumento focal de desenvolvimento tecnológico e não apenas uma forma de prover o governo das suas necessidades básicas.

*Jeovani Salomão é empresário do setor de TICs e ex-presidente do Sinfor e da Assespro Nacional.

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