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Cuidado para o Delivery não matar o seu vizinho!

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Por Jeovani Salomão* – Coloca a máscara, sai do apartamento, entra e sai do elevador, higieniza a mão, entra no carro, sai da garagem, dirige até o supermercado, para no estacionamento, sai do carro, pega o carrinho, entra na fila para medir a temperatura, higieniza as mãos e o carrinho, faz as compras guardando o espaço indicado, higieniza as mãos várias vezes, compra em uma ordem correta, para que o mais pesado fique embaixo no carrinho, vai para o caixa, retira as compras na ordem contrária que elas entraram no carrinho, paga a conta, higieniza as mãos, coloca as compras de volta no carrinho de forma a deixar o mais pesado por baixo depois de ter tirado o mais leve primeiro, vai até o carro, abre o porta-malas, retira as compras na ordem inversa que colocou mas tentando colocar o mais pesado embaixo para não amassar o mais leve, entra no carro, higieniza as mãos, chega na garagem, pega o carrinho do condomínio, higieniza o carrinho, coloca as compras no carrinho (o mais pesado primeiro, que estava embaixo do mais leve), entra e sai do elevador de serviços, higieniza as mãos, entra em casa, retira as compras, coloca na mesa, higieniza as compras, guarda as compras, devolve o carrinho, tira a roupa (ou devia ter feito isso antes?) e vai tomar banho! Ufa, só quem faz compras, sabe como é difícil nessa época.

As lembranças desse momento em que vivemos podem ser de uma pequena interrupção no cotidiano, uma fase, em que nos isolamos para combater a pandemia, seguida de uma retomada gradual da nossa vida regular. Se for assim, em breve, teremos histórias interessantes para contar, experiências novas que surgiram, convivências inéditas, mas voltaremos ao que conhecemos como normal.

As apostas maiores, entretanto, são que hábitos vão mudar. Conheceremos um novo “normal”. Alguns tipos de negócio vão se esgotar e novos surgirão em substituição. Tomara, por exemplo, que ocorra uma verdadeira guinada no ensino, para que modelos ultrapassados, com os quais convivem nossas crianças e adolescentes, sejam substituídos por metodologias centradas no aluno, com amplo uso de tecnologias inclusivas. Tomara que a proximidade com a família aumente e que tenhamos mais equilíbrio em nossas vidas. Tomara que o trânsito das grandes cidades reduza, com mais gente trabalhando em casa.

Fator determinante do futuro, nosso comportamento na crise, pode nos levar por diversos caminhos. Com o confinamento, ampliamos o uso do e-commerce, que era estranho para muitos, mas que se torna cada vez mais natural. Para se ter uma ideia, segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico, após o início da pandemia, houve uma adesão de 4 milhões de novos clientes no Brasil.

Na condição de consumidores buscamos o melhor custo-benefício do produto a ser adquirido. Isso envolve preço, qualidade, comodidade, tempo de entrega, dentre outros fatores. Mas é preciso entrar uma variável adicional nessa equação.

Segundo a Neoway, maior empresa da América Latina de Big Data para negócios, o Brasil conta com 6 milhões de estabelecimentos de varejo, desses, mais de 5,7 milhões são pequenas e micro empresas. Seus vizinhos! Eles são responsáveis por 58% do emprego formal do segmento. São a verdadeira mola propulsora da nossa economia.

Com a migração para as plataformas digitais, as empresas mais bem estruturadas, com maior capacidade de investimento saem na frente. Se você começou a comprar comida pela Internet, com aplicativos como Uber Eats, I-food ou Rappi, certamente, verá com prioridade os estabelecimentos com maior volume de entregas. A princípio, parece ótimo, pois você passa a ter acesso a um universo que até então era desconhecido, provando restaurantes novos e bem conceituados.

Inicia também a compra de outros itens, afinal parte do comércio, de acordo com a cidade que você vive, está fisicamente fechado. Descobre que pode, inclusive, comprar alguns produtos de sites internacionais. Um verdadeiro “Negócio da China”.

O crescimento deste tipo de comportamento já vinha acontecendo há algum tempo, mas as condições atuais são propícias para uma aceleração. Já mencionei, em outras ocasiões, que as empresas de logística vão se utilizar de maneira cada vez mais intensa de drones de entrega. Em resumo, você terá potencial de compra ampliado, com ofertas do mundo inteiro, alta variedade, velocidade e qualidade.

Perfeito, não é?

Se você pensar exclusivamente no curto prazo sim. Mas as consequências podem ser gravíssimas. Se os negócios do seu bairro, seus vizinhos, falirem, teremos um impacto brutal no emprego e na renda. Os espaços comerciais ficarão abandonados, gerando questões de segurança com as quais você não vai querer lidar, mas será obrigado.

Se a prioridade número um do momento é cuidar da saúde, a número dois com certeza é cuidar da economia. Pode ser que não esteja a seu alcance interferir nas políticas de governo, ou tomar as decisões pelos grandes bancos – que deveriam se comportar de forma muito mais solidária que estão, mas você pode exercer um papel fundamental ao comprar do seu vizinho, mesmo que seja pela Internet!

*Jeovani Salomão é empresário do setor de TICs e ex-presidente do Sinfor e da Assespro Nacional

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